terça-feira, 18 de março de 2008

Rui David de Matos e Silva



Rua e casas de Pedrogão Pequeno


Rui David de Matos e Silva, pintor, n. em Lisboa em 13/7/1918 e m. em 25/5/1987. Pertence à terceira geração da família Mattos e Silva, sendo filho de Ema de Mattos e Silva e de seu marido e primo direito Francisco David e Silva. Foi um excelente aguarelista, também como sua tia Fernanda, aluno de Raquel Roque Gameiro.

quinta-feira, 13 de março de 2008


Dois livrinhos de histórias infantis de Fernanda Matos e Silva, publicados pelas Edições Excelsior.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Fernanda Matos e Silva


desenho de modelo executado no atelier de Raquel Roque Gameiro

sábado, 8 de março de 2008

Sol-Posto


Luz suave! Sol-posto!

Tardes quentes de Agosto,
cantam grilos no relvado.
Pelas ruelas da aldeia
tilintam até dá gosto
as campainhas do gado!

Na linha do horizonte,
na penumbra, esmaecida,
há nuvens ensanguentadas.
E lá longe, entre pinhais,
alveja, por sobre um monte,
o tom claro de uma ermida.

Hora do entardecer, hora querida,
em que soam, espaçadas,
as dolentes badaladas
d'Avé Marias!
Hora a que sinto saudades
dessas mentiras tão doces
que junto de mim dizias!


Fernanda Mattos e Silva, Pedrogão Pequeno, 1926
Aguarela de Ema Mattos e Silva, largo de Pedrogão Pequeno

Disse-me a Mãe que, quando era bebé, adorava ouvir música, à qual ficava muito atento em silêncio e adormecia tranquilamente ao som do rádio, acordando imediatamente se a música se calava. Nunca consegui perceber o fascínio que determinadas músicas e determinadas vozes dos anos quarenta exerciam sobre mim. Quando tive idade para começar a gostar de música - e refiro-me à música ligeira - o género era já muito diferente. E intuí que aquele tipo de música ficara gravado nos meus sonos dos primeiros tempos de vida, como uma extensão musical da própria ternura da Mãe.


Frank Sinatra, "Embraceable you" George e Ira Gershwin,1938

quinta-feira, 6 de março de 2008


desenho de modelo de Fernanda Matos e Silva

segunda-feira, 3 de março de 2008

Memórias




Texto inédito de Fernanda Matos e Silva

Mudáramos para a Av. Da Republica, defronte do Colégio Inglês, em que as minhas duas irmãs e o meu irmão se educaram.
Aí nos conservamos cinco anos, findos os quais, por serem necessários mais dois quartos, pois meu irmão crescera e era já um homenzinho e minha avó materna enviuvara, tendo ido viver connosco, mudamos para a Praça Duque de Saldanha nº 1,( no prédio do anjo), no 1º andar direito.
Foi aí que comecei a frequentar um colégio que havia perto, onde aprendi, desde as primeiras letras até à 3ª classe de hoje, 1º grau desse tempo.
Tinham-se passado dois anos e meio quando deixamos essa casa, indo morar na Av. da Liberdade 122. Mudança de escola e de professores, nova adaptação a outro ambiente e comecei a frequentar a Escola Luso- Franco- Belga, numa rua que terminava num beco sem saída e que é hoje a R. Rodrigues Sampaio a Stª Marta.
Uma série de contratempos, doenças minhas e tinha dez anos sem ter feito exame algum, embora estivesse habilitada para isso. Mas ali naquela casa minha mãe não achava o ambiente próprio aos seus anseios de artista que não podia acostumar-se a viver dentro duma casa vulgar da cidade, nem queria afastar-se contudo dela, habituada desde o berço às comodidades e bulício de Lisboa.
Eis que surge a oportunidade sonhada e que viria reunir os seus desejos: a paz e o sossego da aldeia, a dois passos da Baixa.
Uma professora indicou a meus pais uma quinta que estava em venda, ficando ainda dentro da periferia da cidade pois era perto do Areeiro e tinha a caracteriza-la reunir em si todas as atracções do campo juntamente com a comodidade de uma casa citadina a que não faltava gás, salamandras para aquecimento no Inverno, uma vista maravilhosa sobre parte da cidade e o esmero com que fora delineada e estava tratada.
O entusiasmo foi tal, após a primeira visita que a minha mãe não descansou mais até que o meu pai satisfazendo-lhe a vontade, que era igualmente a dele pois fora o seu sonho dourado, a comprou.
Nova mudança, mas desta vez só ao fim de 31 anos e com fundo desgosto deixei essa casa, essa querida casa que foi o paraíso da minha adolescência, fonte inesgotável de alegrias sãs, boa saúde física e mental que desde o primeiro dia nela desfrutei.
Para uma criança criada na cidade, embora saindo todas as férias para o campo ou para a praia, aquela quinta foi a felicidade. Tinha a parte rústica representada pelas hortas vicejantes e sempre fartas, o pomar sendo além disso semeada de árvores de fruto por todos os recantos e de todas as variedades, com campos de semeadura, searas (coisa que até aí nunca vira de perto)
Capoeiras bem providas, cortiços com abelhas, um estábulo com 10 vacas, vinha e latadas encimando as ruas e jardins, nem menos de cinco grandes jardins a abarrotar com flores, adornadas com muros de buxo, de tanques a emprestar frescura e graça a todos eles.
Qualidades de árvores de sombra raras: um cacto gigante circular, uma árvore-da-borracha, tamareiras com verdadeiras tâmaras, eucaliptos, pinheiros bravos e mansos, acácias de floração branca, roxa e rosa, olaias e tramangueiras empenachadas de lilás e rosa, oliveiras, que sei eu, de tudo bastante e bem distribuído de forma a encher de sombra aprazível as ruas e bancos de azulejos antigos, porque bem antiga era essa quinta que no portão principal deitando para um pequeno largo na azinhaga do Areeiro, esquina da Calçada da Ladeira, tinha lindo painel de azulejos figurando dois pavões de caudas em leque abertas e policromas e a data de 1726.
Aí vivi e cresci, aí senti pela primeira vez com o contacto diário com a natureza, o encantamento que ela empresta ao campo, no decorrer das estações do ano e as transformações constantes porque assistia deslumbrada, fizeram-me conceber o desejo de descrever o que via, tentando reproduzir em letras e frases o meu sentir.
Começaram os primeiros versos ( maus versos de péssima poetisa) e as primeiras ensaios literários.
Quanto a estudos ….
Há 32 anos Lisboa não era como é hoje. No Largo do Chile terminava a Avenida Almirante Reis e depois rumo ao Areeiro e à Quinta do Alperce, que este era o nome pitoresco da Quinta e que, juntamente com os terrenos e outra Quinta dos Alperces que ainda existe ou existiu no Caminho de Baixo da Penha, pertenceram a Pina Manique, só havia azinhagas entre muros e de leito pedregoso ou terra batida e a Rua do Areeiro, pouco mais larga e também toscamente empedrada, por onde passava o eléctrico.
Daí por diante e à volta da nossa, quintas de semeadura, mais quintas rústicas ( a do Padre – a do Manuel dos Passarinhos, etc.)
Como poderia seguir regularmente os estudos, frequentar um liceu (havia tão poucos para meninas e tão longe!) ter uma educação oficial? Os professores iam dar-me lições a peso de ouro indo o carro do meu pai busca-los e pô-los novamente em casa ou aonde mais lhes convinha.
Assim aprendi português com o professor José Portugal, autor do Método Prático de Português e um bom, proficiente e simpático professor que ainda hoje lembro com comovida saudade e grande veneração.
Como eu manifestasse desgosto por não tirar o curso do liceu e depois o curso superior de letras, ainda comecei a estudar (em casa) o 1º ano dos liceus, mas o estudo assim sozinha, sem o estimulo da competição nem a companhia de outras pequenas da minha idade, depressa me desanimou e aborreceu desistindo. Aprendi o português, francês, inglês, lavores, arte aplicada ( coisa hoje tão fora de moda e então em plena voga) piano e canto e só muito mais tarde desenho e pintura com D.Raquel Roque Gameiro de quem fui discípula.
Desde criança senti sempre atracção pelo estudo, avidez em saber e aprender, pelo prazer de aprender e saber, pois estudei sempre só e em casa.
Hoje ainda, gosto sempre de aprender coisas novas e aperfeiçoar o que aprendi.
É preciso dizer que devo a minha formação intelectual não só ao estudo e aos bons professores que tive, mas também ao ambiente culto e artístico em que nasci e me criei também, pois meus irmãos e eu beneficiamos com o contacto constante com meus pais, sobretudo a minha mãe, senhora de rara cultura e profundamente artista. Discípula dilecta de Gonçalves Viana e Ferreira-Deusdado, ensinou-nos a amar a nossa língua e a cultiva-la. Aluna de Luciano Freire, interessou-nos desde pequeninos pelas artes plásticas, levando-nos a museus e exposições, a monumentos e igrejas, para que conhecêssemos a pintura, a escultura e arquitectura, não só dos livros, mas de ver; aluna ainda de Vieira e condiscípula de Viana da Mota, no Conservatório, onde tirou o curso superior de piano com louvor e distinções em todos os anos; não só fez-nos ouvir boa música desde o berço, familiarizando-nos com os grandes génios musicais em inesquecíveis serões de arte, recordados ainda hoje por nós com saudade infinita; como nos levava a concertos a S. Carlos educando-nos o gosto e o ouvido.
Comecei a escrever pequenos contos infantis aos doze anos, para distrair 6 sobrinhos belicosos, muitas vezes entregues à minha guarda e que gostavam muito de ouvir historias.
Depois de esgotado o repertório dos que sabia e eram muitos: Grimm, Andersen, Ana de Castro Osório, até as Mil e Uma Noites, em rica edição profusamente ilustrada, eu tive que inventar histórias para os distrair. E como essas histórias tinham sucesso no meu público infantil, acrescido nesse tempo de mais dois ou três amiguinhos e ouvintes, passei a escreve-las e a guardá-las.
Ia escrevendo contos, descrições, narrativas históricas e de simples engenho meu e juntamente com as redacções exigidas pelo meu professor de português. Por indiscrição de uma das crianças o meu professor soube dos meus contos e quis lê-los e admirada, escutei pela primeira vez aplausos e incitamentos de uma pessoa crescida, o que me encheu de zelo e boa vontade de prosseguir. Já nesse tempo eu decidira ser escritora e planeava sonhos para o porvir.
Passaram-se contudo bastantes anos antes de publicar qualquer trabalho meu. Só muito mais tarde, em 1928 me decidi a escrever para o Século.
Li muito, leio sempre, com o mesmo interesse, o mesmo desejo de aprender, de saber; obras de todos os géneros e isso melhorou e poliu bastante o meu estilo corrigindo defeitos, tornando-o mais claro e mais simples.
De começo procurava as palavras bombásticas, empoladas, que deslumbravam e pareciam as mais belas e empregava os adjectivos com profusão, parecendo- me mais fácil assim, descrever o que via, ou o sentir psicológico dos meus personagens.
Depois, mercê do estudo e de bons conselhos, fui melhorando de forma procurando dar as frases maior simplicidade e mais justeza e hoje, sempre insatisfeita, continuo tentando atingir mais perfeição.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Na Sintra ainda rural de 1958



Quando os pais arranjaram uma casa para férias na Portela, em Sintra, esse bairro, a par da Estefânia, era a parte moderna da vila. Algumas moradias na descida da então Av. José Frederico Ulrich, um descampado à esquerda onde,depois de uma ruazita, ficava um dos cinemas, o Sintra-Cinema, depois a zona de prédios, baixos, com dois ou, no máximo, três andares e depois de novo descampado com mato rasteiro e algumas árvores perdidas, que ia até ao Algueirão.
Por trás da nossa casa, para além do quintal, ficava uma estrada, entre uma casa de quinta e o muro do campo de futebol do Sintrense, em terra batida, onde além do desporto-rei ocorriam no verão os Concursos Hípicos, que reunia a nata dos cavaleiros - ali vi entre outros, Malta da Costa e Ana Maria Ribeiro Ferreira, hoje embaixatriz Sider Santiago, e da nossa melhor sociedade - e onde ia com alguma frequência o Presidente da República, Gen. Craveiro Lopes, assistir às provas. Então o altifalante soava:"entra em campo o Capitão João Carlos Craveiro Lopes, montando o...".O pai seguia atentamente a carreira hípica do filho.
Para essa estrada, sobre cujo lado esquerdo se via ao fundo a serra e nela o Palácio da Pena, ia muitas vezes Fernanda Mattos e Silva desenhar e pintar, montando cavalete e sentando-se num banquinho de armar, à sombra das árvores dos restos da velha quinta. Era ainda a Sintra semi-rural com o encanto que perdeu em poucos anos com o crescimento da população e a proliferação de prédios que rodearam a nova estação dos comboios, então um tosco apeadeiro.
Esta tela retrata um trecho dessa estrada, por onde ainda passavam ,quando eu era adolescente, saloios e saloias montados em burros com os alforjes cheios de figos, ovos, galinhas, legumes , pevides e tremoços para vender. Confesso que sinto uma grande saudade dessa Sintra e dessa minha feliz e tranquila juventude.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Fernanda de Matos e Silva


desenho de modelo executado no atelier de Raquel Roque Gameiro

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Não há amor como o primeiro



Na primeira página do Diário de Notícias de 6 de Agosto de 1942, numa coluna intitulada "Livros Novos", E.V. fazia a crítica ao romance:



" A legenda editorial informa que este romance foi ' premiado com Menção Honrosa no Concurso do Grémio de Editores e Livreiros, Procura-se um romancista'. Embora a referência pouco valha para a crítica, ela obriga a pressupor, antes da leitura, que vamos encontrar uma obra de mérito.De facto,'Não há amor como o primeiro' não desilude. É uma obra trabalhada com leveza, que indica duas qualidades excelentes: prosa límpida, corrente, bem orquestrada e vôos sedutores de imaginação...Pelo lado puramente romanesco o livro da Srª D. Fernanda de Matos e Silva tem um interesse saliente e apetecível. O enredo prende...
Vaticinamos a 'Não há amor como o primeiro' o o signo da boa estrêla - esperando que ela seja guia e norte nos novos trabalhos da autora".

O quarto romance


1943-ano da publicação do quarto romance e do casamento com o seu editor, João de Almeida, e fotografia desse ano, que lhe é dedicada.


O banco de azulejos


Vista da Quinta do Alperce - aguarela de Fernanda Mattos e Silva

No canto inferior esquerdo, o banco de azulejos da sua predileção

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Fernanda de Matos e Silva


O menino dos cabelos de oiro

Eu tenho, na quinta onde moro, uma ruazinha estreita em que há um antigo banco de azulejos, da minha maior predilecção.
Sempre que a Inspiração, essa fada caprichosa, me vem visitar, é aí que costumo ir sentar-me e muitas vezes acabo por me estender no sofá de pedra, e, com os olhos perdidos na ramaria arrendada duma frondosa olaia e as mãos cruzadas debaixo da nuca, já me tem acontecido adormecer.
E então sonho coisas lindas e tão engraçadas que estou convencida que o velho banco tem misterioso condão, talvez mesmo um encantamento!
Uma destas tardes, tão quente que parecia já estarmos na Primavera, peguei na pasta dos papéis e… lá vou eu com o propósito de escrever uma história!
Mas o ar morno e o céu azul, transparente, distraíram-me tão bem… que às duas por três adormeci!
Excerto do conto publicado na revista Senhor Doutor

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Grades


Não quero estas grades diante dos meus olhos!
Não quero estes muros escondendo o horizonte!
Quero ver mais p'ralém desta vida de escolhos,
Descortinar a Terra do mais alto do monte.


Não quero estas grades diante dos meus passos,
Não quero esta prisão cerceando a liberdade,
Quero ir mais longe do que estes metros escassos
que limitam cruelmente a minha ansiedade.


Não quero estas grades tolhendo o pensamento,
Não quero esta prsião onde o meu Ser fenece,
Quero ser livre, livre como o próprio vento,
Que em invisíveis rotas vai onde lhe parece.


Não quero estas grades prendendo a minha alma,
Não quero este cárcere exíguo e apertado.
Quero sentir, enfim, a doce Paz, a calma,
de quem tem por caminho o espaço ilimitado

Fernanda Mattos e Silva, 17.3.1958

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Fernanda de Matos e Silva


Ganhou em 1942 Menção Honrosa, no Concurso Literário "Procura-se um Romancista", do Grémio Nacional dos Editores e Livreiros, com o romance " Não há amor como o primeiro".



cópia retirada da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira,
Vol. XXVIII, p.783. Editorial Enciclopédia, Limitada, Lisboa

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Fernanda Noémia de Mattos e Silva


Fernanda Noémia de Mattos e Silva, pintora, escritora e cantora lírica.
Estudou pintura com Raquel Roque Gameiro. Participou em diversas exposições de pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes, tendo ganho menções honrosas.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Fernanda e Mário em recitais líricos






Fernanda e Mário estudaram canto lírico com a Profª D. Africa Cabral e participaram em vários recitais. Em divversas ocasiões estiveram no salão do Conservatório de Lisboa, nomeadamente em 11 de Junho de 1922 onde participaram num concerto dirigido pela sua professora, que também cantou árias de, entre outros, Hadydn, Wagner, Zandonai, Zanella, Albeniz, Freitas Branco e Francisca Gonzaga e em actuaram os seus alunos Maria Helena Cunha Baptista, Mário Mattos e Silva, Aurora de Sant'Ana, Estrella Cayola, Alice da Luz e Silva, Fernanda Noémia de Mattos e Silva e Manoela Laborde dos Santos. Mário interpretou "Lo Schiavo" de "Sogni d'Amore" de Carlos Gomes e "E canta il Grilo" de V.Billi e Fernanda, de "Palo e Virginia" de V.Massé, "Era notte".

O Grande Casino Peninsular da Figueira da Foz, onde passavam férias, também foi palco para recitais em que participaram por diversas vezes. Na "Festa Artística dos Sextettos", no Salão Nobre, em Agosto de 1924, Fernanda interpretou "Lo Schiavo", de Carlos Gomes, "Addio terra nativa", da ópera "Africana" de Meyerbeer e com Mário, em dueto, a canção" Ta Bouche", de M.Yvain. Mário, por sua vez, cantou a "Serenata" de Tocelli e "Ay, ay, ay", canção creoula.

O jornal "O Figueirense" refere, sobre esse concerto que "O Sr. Mário Mattos e Silva cantou brilhantemente a Serenata de Tocelli" e "Cantaram ainda o doeto Ta Bouche a Srª D. Fernanda Mattos e Silva e o Sr. Mário Mattos e Silva, que foram muito aplaudidos".

Mário da Cruz de Mattos e Silva, cantor lírico

1.º Concerto em que Mário e Fernanda participaram como cantores líricos


sábado, 9 de fevereiro de 2008

Conto de Alda dedicado aos sobrinhos Emília e João


Cria fama …. Deita-te a dormir

Aquilo começou na escola primária. No primeiro dia de aulas quando a mestra Abelha fez a chamada verificou que faltava um aluno.
Já os outros esperavam alinhados junto às carteiras que a professora os mandasse para os seus lugares. Sabedora do protocolo profissional D. Abelha não o fez sem primeiro botar fala; num brevíssimo discurso inaugural. Meus meninos – começou enfatuada, o ano lectivo que vai principiar traz ao professorado grandes esperanças, nunca como agora ocorreu tanta bicharada em busca da luz da instrução. As matrículas excederam tudo quanto é possível imaginar-se, e vejo com agrado, que estais satisfeitos de vir para a escola. Hoje é o primeiro dia de aula. Espero ver-vos no último com o mesmo aspecto risonho e confiante na esteira de um caminho mais longo e proveitoso que será um futuro cheio de glória…para muitos de vós. Sem bons alicerces meus amiguinhos não se pode executar obra sólida, e isto é o mesmo que dizer que sem bases… nada se faz de jeito.
A escola primária é o cabouco onde assenta o majestoso edifício da instrução; portanto, mãos à obra. Eu sou o capataz, vós os operários. Comecemos com coragem a construir os alicerces que aguentarão mais tarde um arranha-céus de muitos andares.
Nesta altura do discurso, mestra Abelha limpou uma lágrima teimosa que se escondia ao cantinho do olho, não tendo tempo de prosseguir porque um estrépido áspero, um resfolegar anelante desviava todas as atenções para a porta de entrada. Na soleira da porta aparecia a figura desajeitada e cómica de um burrito cinzento, com grandes orelhas espetadas e olhitos redondos como duas missangas negras.
Mestra Abelha não gostou da interrupção, franziu o sobrolho e para dar de começo a ideia exacta do seu temperamento e autoridade interpelou assim o retardatário: meu menino; por ser hoje o dia da abertura das aulas não ficas na rua, mas daqui por diante ou chegas a horas como os teus demais condiscípulos ou voltas por onde vieste, com três valentes ponteiradas no lombo. Com ar severo concluiu zumbindo: tenho dito.
Daí por diante o burriquito levava quando merecia e muitas vezes até, quando não merecia.
Que culpa tinha ele de não lhe ficarem na cabeça vogais e consoantes, de ter dificuldade em traçar as letras, de não fixar a tabuada.?!
Por tabuada a menina Pega essa sim! Papagueava de fio a pavio adições, multiplicações, divisões…. E nas subtracções botava sempre figura.:
- Minha Senhora, falta-me a lapiseira.
-a mim a caneta
- a mim a borracha – diziam as colegas.
Nas subtracções a Pêga era sempre a dianteira. Coitadita a Galinha a escrever era mesmo só ela e na leitura: b á bá – b á bá, cacarejava muito aflita repetindo as sílabas gaguejando… sem passar da cepa torta.
Entre os alunos havia um que fizesse o que fizesse nunca era castigado. Pudera! Passava o tempo a lamber as botas da professora. Era o Cão.
Menos fiel, mas igualmente animada a Rolinha soubera atrair as boas graças. Esperta, viva, saltitante, quando Mestra Abelha delicadamente a advertia da sua falta de atenção, semicerrava o biquito deixando perpassar como um sussurro, enquanto dava às asas: põe-te na rua!! Põe-te na rua!! Põe-te na rua!!
Era preciso ter cabeça de ferro para governar naquele cortiço. D. Abelha exaltava-se, o ponteiro trabalhava.
Minha Senhora chamava um Periquito muito ridículo choramingando; o menino Galo está sempre a brigar comigo, puxou-me pelas penas do rabo…
Tudo calado zumbia a mestra batendo com a régua na secretária. Não ouviram? Tornava a bater, tudo calado!! Um Sardãozito esverdeado à socapa deitava a língua de fora. Tantas vezes o fez que foi de castigo… para fora da aula.
- Quantas vezes te tenho dito, Sardão, que é feio esse gesto!!! À mestra parecia-lhe impossível que lá em casa lhe dessem semelhante educação.!!
O menino Lobo e a menina Raposa eram pouco assíduos, em vez de irem para a escola iam aos ninhos ou às capoeiras. Não havia que estranhar, era costume que lhes vinha de longe; os senhores seus avós eram tal e qual…. Casa de pais, escola de filhos!!!
Enfim todos tinham suas qualidades e defeitos uns maiores outros menores.
Ali estava o Elefante que não era estúpido mas trombudo, o Gato manhoso e preguiçoso;
D. Leão desdenhando os que não tinham brasão, a Águia-real a quem tudo parecia mal, o Pavão, um grandessíssimo vaidoso, um toleirão. Ainda havia um menino, sebentão, fungando a cada instante, (o que grandemente irritava a professora). Era mesmo um suíno, não se lavava, ia para a escola com os dentes, as unhas, as orelhas imundas e chamavam-lhe Porco.
Estudioso, cumpridor, nos primeiros tempos só o Urso. Trazia as lições bem estudadas e nunca D. Abelha o pilhou em falta. Por essa razão lhe perdoava o seu feitio estranho, isolando-se dos companheiros, não acamaradando em brincadeiras. O Burriquito bem o desafiava: - oh Urso vem d’aí saltar o eixo.
- Eu?!!! Respondia o Urso… muito senhor de si. Não penses que gosto de brincar com quem é menor do que eu:
Então o burro acicatado com a esporada atirava-lhe uma parelha de coices: - grande urso é o que tu és!!!
Azedavam-se os ânimos, vinha a professora e o burro lá ficava de castigo, sem recreio e de orelha derrubada.
Em tão grande conta era tido o Urso no conceito da mestra que nem já o chamava às lições, na certeza da sua aplicação constante no estudo.
De ano para ano foi fazendo os seus exames e o burriquito ia passando também mercê da sua teimosia e força de vontade.
Chegaram ambos ao liceu. A fama do Urso porém tinha-se-lhe antecipado. As charamelas haviam soado forte atordoando os ouvidos dos professores e reitor que olhavam o recém vindo como um menino prodígio. Os anos foram passando, o Urso era premiado com esplêndidas notas, com chamadas ao palco na festa de abertura de aulas a recompensar o seu suposto esforço. E de tanta importância o investiram que o bom do urso se julgou um ser aparte.
Em contraste o burriquito esfalfava-se a estudar teimando, num supremo arranque de vontade em obter a média necessária para passar. Lá conseguiu tirar o curso ao mesmo tempo que o outro.
Já na Universidade cada qual seguia o seu caminho, o Urso muito adulado, pouco consciencioso, orgulhoso. O burro aceitando o seu destino com filosofia. Trabalhador, humilde persistente.
A barreira entre ambos já então se erguia, eriçada de cacos de garrafa; e deixou de haver contacto.
Estradas diferentes que deviam desembocar no mesmo largo, a vida reservava-lhes grandes surpresas.
Quando o Urso por acaso se encontrava com o Condiscípulo, baixava a cabeça contrafeito dizendo; olá… e era tudo.
Mas o Burrito perdoava-lhe a toleima, de si para si julgava o outro com superior inteligência e indulgência.
Correspondia e passava adiante. Senhores dos seus diplomas foram atirados para a vida, para a realidade; habilitando-se a prestar provas no mesmo concurso.
Por estranho que pareça não foi o urso quem ficou aprovado apesar das muletas da fama a que sempre se apoiava.
O Burro, o asno, o estúpido… obteve o lugar que lhe competia porque sem alardes e perseverando estudou com vontade de vencer. O outro, iludiu-se a iludir toda a gente e afinal fez uma linda figura ….de urso.

Conto de Alda dedicado aos sobrinhos Emília e João


Cria fama …. Deita-te a dormir

Aquilo começou na escola primária. No primeiro dia de aulas quando a mestra Abelha fez a chamada verificou que faltava um aluno.
Já os outros esperavam alinhados junto às carteiras que a professora os mandasse para os seus lugares. Sabedora do protocolo profissional D. Abelha não fez sem primeiro botar fala; num brevíssimo discurso inaugural. Meus meninos – começou enfatuada o ano lectivo que vai principiar traz ao professorado grandes esperanças, nunca como agora ocorreu tanta bicharada em busca da luz da instrução. As matrículas excederam tudo quanto é possível imaginar-se, e vejo com agrado, que estais satisfeitos de vir para a escola. Hoje é o primeiro dia de aula. Espero ver-vos no último com o mesmo aspecto risonho e confiante na esteira de um caminho mais longo e proveitoso que será um futuro cheio de glória…para muitos de vós. Sem bons alicerces meus amiguinhos não se pode executar obra sólida, e isto é o mesmo que dizer que sem bases… nada se faz de jeito.
A escola primária é o cabouco onde assenta o majestoso edifício da instrução; portanto, mãos à obra. Eu sou o capataz, vós os operários. Comecemos com coragem a construir os alicerces que aguentarão mais tarde um arranha-céus de muitos andares.
Nesta altura do discurso, mestra Abelha limpou uma lágrima teimosa que se escondia ao cantinho do olho, não tendo tempo de prosseguir porque um estrépido áspero, um resfolegar anelante desviava todas as atenções para a porta de entrada. Na soleira da porta aparecia a figura desajeitada e cómica de um burrito cinzento, com grandes orelhas espetadas e olhitos redondos como duas missangas negras.
Mestra Abelha não gostou da interrupção, franziu o sobrolho e para dar de começo a ideia exacta do seu temperamento e autoridade interpelou assim o retardatário: meu menino; por ser hoje o dia da abertura das aulas não ficas na rua, mas daqui por diante ou chegas a horas como os teus demais condiscípulos ou voltas por onde vieste, com três valentes ponteiradas no lombo. Com ar severo concluiu zumbindo: tenho dito.
Daí por diante o burriquito levava quando merecia e muitas vezes até, quando não merecia.
Que culpa tinha ele de não lhe ficarem na cabeça vogais e consoantes, de ter dificuldade em traçar as letras, de não fixar a tabuada.?!
Por tabuada a menina Pega essa sim! Papagueava de fio a pavio adições, multiplicações, divisões…. E nas subtracções botava sempre figura.:
- Minha Senhora, falta-me a lapiseira.
-a mim a caneta
- a mim a borracha – diziam as colegas.
Nas subtracções a Pêga era sempre a dianteira. Coitadita a Galinha a escrever era mesmo só ela e na leitura: b á bá – b á bá, cacarejava muito aflita repetindo as sílabas gaguejando… sem passar da cepa torta.
Entre os alunos havia um que fizesse o que fizesse nunca era castigado. Pudera! Passava o tempo a lamber as botas da professora. Era o Cão.
Menos fiel, mas igualmente animada a Rolinha soubera atrair as boas graças. Esperta, viva, saltitante, quando Mestra Abelha delicadamente a advertia da sua falta de atenção, semicerrava o biquito deixando perpassar como um sussurro, enquanto dava às asas: põe-te na rua!! Põe-te na rua!! Põe-te na rua!!
Era preciso ter cabeça de ferro para governar naquele cortiço. D. Abelha exaltava-se, o ponteiro trabalhava.
Minha Senhora chamava um Periquito muito ridículo choramingando; o menino Galo
está sempre a brigar comigo, puxou-me pelas penas do rabo…
Tudo calado zumbia a mestra batendo com a régua na secretária. Não ouviram? Tornava a bater, tudo calado!! Um Sardãozito esverdeado à socapa deitava a língua de fora. Tantas vezes o fez que foi de castigo… para fora da aula.
- Quantas vezes te tenho dito, Sardão, que é feio esse gesto!!! À mestra parecia-lhe impossível que lá em casa lhe dessem semelhante educação.!!
O menino Lobo e a menina Raposa eram pouco assíduos, em vez de irem para a escola iam aos ninhos ou às capoeiras. Não havia que estranhar, era costume que lhes vinha de longe; os senhores seus avós eram tal e qual…. Casa de pais, escola de filhos!!!
Enfim todos tinham suas qualidades e defeitos uns maiores outros menores.
Ali estava o Elefante que não era estúpido mas trombudo, o Gato manhoso e preguiçoso;
D. Leão desdenhando os que não tinham brasão, a Águia-real a quem tudo parecia mal, o Pavão, um grandessíssimo vaidoso, um toleirão. Ainda havia um menino, sebentão, fungando a cada instante, (o que grandemente irritava a professora). Era mesmo um suíno, não se lavava, ia para a escola com os dentes, as unhas, as orelhas imundas e chamavam-lhe Porco.
Estudioso, cumpridor, nos primeiros tempos só o Urso. Trazia as lições bem estudadas e nunca D. Abelha o pilhou em falta. Por essa razão lhe perdoava o seu feitio estranho, isolando-se dos companheiros, não acamaradando em brincadeiras. O Burriquito bem o desafiava: - oh Urso vem d’aí saltar o eixo.
- Eu?!!! Respondia o Urso… muito senhor de si. Não penses que gosto de brincar com quem é menor do que eu:
Então o burro acicatado com a esporada atirava-lhe uma parelha de coices: - grande urso é o que tu és!!!
Azedavam-se os ânimos, vinha a professora e o burro lá ficava de castigo, sem recreio e de orelha derrubada.
Em tão grande conta era tido o Urso no conceito da mestra que nem já o chamava às lições, na certeza da sua aplicação constante no estudo.
De ano para ano foi fazendo os seus exames e o burriquito ia passando também mercê da sua teimosia e força de vontade.
Chegaram ambos ao liceu. A fama do Urso porém tinha-se-lhe antecipado. As charamelas haviam soado forte atordoando os ouvidos dos professores e reitor que olhavam o recém vindo como um menino prodígio. Os anos foram passando, o Urso era premiado com esplêndidas notas, com chamadas ao palco na festa de abertura de aulas a recompensar o seu suposto esforço. E de tanta importância o investiram que o bom do urso se julgou um ser aparte.
Em contraste o burriquito esfalfava-se a estudar teimando, num supremo arranque de vontade em obter a média necessária para passar. Lá conseguiu tirar o curso ao mesmo tempo que o outro.
Já na Universidade cada qual seguia o seu caminho, o Urso muito adulado, pouco consciencioso, orgulhoso. O burro aceitando o seu destino com filosofia. Trabalhador, humilde persistente.
A barreira entre ambos já então se erguia, eriçada de cacos de garrafa; e deixou de haver contacto.
Estradas diferentes que deviam desembocar no mesmo largo, a vida reservava-lhes grandes surpresas.
Quando o Urso por acaso se encontrava com o Condiscípulo, baixava a cabeça contrafeito dizendo; olá… e era tudo.
Mas o Burrito perdoava-lhe a toleima, de si para si julgava o outro com superior inteligência e indulgência.
Correspondia e passava adiante. Senhores dos seus diplomas foram atirados para a vida, para a realidade; habilitando-se a prestar provas no mesmo concurso.
Põe estranho que pareça não foi o urso quem ficou aprovado apesar das muletas da fama a que sempre se apoiava.
O Burro, o asno, o estúpido… obteve o lugar que lhe competia porque sem alardes e perseverando estudou com vontade de vencer. O outro, iludiu-se a iludir toda a gente e afinal fez uma linda figura ….de urso.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Flores de Alda Mattos e Silva Marinha


Alda Margarida de Mattos e Silva Marinha


Ganhou a 3ª menção honrosa no Concurso Literário de “Conclusões e Respostas” da Revista Modas & Bordados, com a “ Novela…quasi- trágica” , tendo assinado com o pseudónimo “Tojos e rosmaninhos”. Publicada em de Junho de 1941.
Ganhou o 1º Premio do “ Conto de Natal”, no Concurso Literário de "Conclusões e Respostas" da Revista Modas & Bordados, publicado em 22 de Dezembro de 1943, intitulado “A história da avozinha”.
O conto romântico “ Casamento e mortalha no Céu se Talha” foi premiado no Concurso Literário de "Conclusões e Respostas" da Revista “ Modas & Bordados” e publicado em Junho de 1943.

Aguarela de Ema Mattos e Silva


Ema Mattos e Silva também se dedicou ao desenho e à pintura, sobretudo aguarela.